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OS CRIPTOJUDEUS DA FAIXA FRONTEIRI
çA PORTUGUESA
by Eduardo Mayone Dias
University of California, Los Angeles


Já antes da fundação da nacionalidade existiam em Portugal importantes núcleos judaicos, com as suas sinagogas e o seu estilo de vida próprio. Penetrações posteriores registadas por via terrestre, no sentido oriente-ocidente, criaram outros núcleos ao longo da fronteira com a Espanha, o que viria a permitir um mais fácil comércio, clandestino ou não, com o país vizinho. Durante a Idade Média, radicados por todo o país, desempenharam papel de relevo na sociedade portuguesa como banqueiros, altos funcionários, físicos, homens de negócios e artífices. A Coroa dependia deles para em épocas de crise obter volumosos empréstimos. Até ao reinado de D. Dinis, inclusive, gozaram de considerável protecção real e de significativas regalias. Os judeus tiveram também uma função de destaque na preparação das navegações e mais tarde na colonização do Brasil. A sua situação era contudo sempre precária, dado o delicado equilíbrio entre a protecção real e o intenso antagonismo da maior parte da população. Nos fins do século XV a história tomou para eles dramáticos rumos. Na vizinha Espanha avolumara-se a política anti--semítica dos Reis Católicos, baseada no desejo de uma unificação religiosa. Por provisão de 31 de Março de 1492 foi determinado que os judeus que não se convertessem teriam de deixar o país até ao fim de Julho. Os cálculos sobre os números dos que então se fixaram em Portugal oscilam, segundo as fontes, entre 30 000 e 90 000. Muitos radicaram-se nas zonas fronteiriças das províncias de Trás--os-Montes e da Beira, onde a princípio se estabeleceram arraiais ou acampamentos para os alojar temporariamente e onde poderiam procurar o apoio das comunidades judaicas já aí existentes.

Pouco depois o projectado casamento do rei D. Manuel com D. Isabel, filha dos Reis Católicos, levou-o a aceitar a exigência espanhola de expulsar todos os judeus residentes em Portugal que não se convertessem ao catolicismo, num prazo que ia de Janeiro a Outubro de 1497. Na realidade D. Manuel não tinha qualquer interesse em expulsar esta comunidade, que então constituía um destacado elemento de progresso nos sectores da economia e das profissões liberais. A sua esperança era que, retendo os judeus no país, os seus descendentes pudessem eventualmente, como cristãos, atingir um maior grau de aculturação. Para obter os seus fins lançou mão de medidas extremamente drásticas, como ter ordenado que os filhos menores de catorze anos fossem tirados aos pais a fim de serem convertidos. Depois, quando chegou a data do embarque dos que se recusavam a aceitar o catolicismo, alegou que não havia navios suficientes para os levar e determinou um baptismo em massa dos que se tinham concentrado em Lisboa à espera de transporte para outros países. Muitos foram arrastados até à pia baptismal pelas barbas ou pelos cabelos. Ao que parece, cenas semelhantes registaram-se noutras cidades do país. Não existe contudo documentação oficial que confirme estes factos.

Para além dos que anteriormente tinham aceitado o baptismo sob pressão das circunstâncias, Portugal passava então a contar com uma enorme massa de cristãos-novos extremamente relutantes a aceitar o estatuto que lhes fora imposto. Para muitos a conversão pouco significava sob o ponto de vista moral, já que a lei judaica pode ser interpretada no sentido de que a preservação da vida toma precedência sobre uma quebra de preceitos religiosos. O princípio do kol nidre, embora sem força de lei e aliás contestado por alguns teólogos, permite inclusivamente a invalidação de votos. Sob um ponto de vista mais pragmático a conversão permitia manter a unidade do agregado familiar e abria horizontes para uma futura emigração para países onde existisse maior tolerância. Outra alternativa seria a fixação em localidades onde não fosse conhecida a ascendência hebraica da família. Entre estas localidades, as que estivessem perto da fronteira ofereciam decididas vantagens, dado o seu isolamento.
A situação dos conversos era agora, evidentemente, muito mais trágica. Antes, como judeus, tinham liberdade absoluta de praticar a sua religião. Agora, como cristãos por lei, não poderiam seguir o culto tradicional senão secretamente, sob pena de graves consequências. Céptico quando à ortodoxia dos conversos, sobretudo dos forçados, D. Manuel promulgou a 30 de Maio de 1498 uma medida no sentido de que durante vinte anos não devessem ser molestados pelas suas convicções ou práticas religiosas.

Em 1536, contudo, seu filho, o rei D. João III, conseguiu que fosse introduzida a Inquisição em Portugal e pouco depois iniciou--se a repressão de todos tão bem conhecida. Os tribunais inquisitoriais começaram a perseguir os cristãos-novos com acusações de judaísmo, homossexualidade, bigamia, bruxaria ou pacto com o diabo. Em Lisboa e noutras cidades tinham lugar autos-de-fé, verdadeiros espectáculos públicos, por vezes com a assistência da família real. Ocasionalmente a ira popular era despertada atribuindo-se aos "marranos" a culpa de desastres naturais como a peste, terramotos ou incêndios. Por consequência, e apesar de restrições postas à emigração de cristãos-novos, registou-se um grande êxodo para o estrangeiro ao longo do século XVI, aliás começado logo após um massacre registado em Lisboa no ano de 1506. Este êxodo abrangeu especialmente a élite mercantil, aquela que mais integrada se encontrava nas estruturas capitalistas da época.

No século seguinte a situação não melhorou. O povo era incitado por eclesiásticos a maltratar os judeus, raça impura e maldita. Em 1680 um padre franciscano percorreu as igrejas da Covilhã, onde existia uma importante comunidade hebraica, encorajando a multidão a "que os queimassem e que os apedrejassem e que os matassem". Por outro lado era constante a luta dos cristãos-novos para fazer valer os seus direitos e pela obtenção de privilégios, em especial o acesso a lugares públicos, ao magistério universitário e às estruturas eclesiásticas, muitas vezes obtidos à custa de pesadas contribuições.

Depois da restauração da independência, em 1640, a Companhia de Jesus entrou em oposição ao Santo Ofício e tentou conseguir uma melhor situação aos cristãos-novos. No entanto foi só pela segunda metade do século XVIII e mais particularmente em 1821, quando se decretou a abolição do Santo Ofício, que os descendentes dos conversos conseguiram por fim ver-se livres das perseguições oficiais. Ao longo dos anos a élite mercantil tinha sido em grande parte destruída. A confiscação dos bens dos acusados em processos inquisitoriais foi sem dúvida um poderoso factor explicativo da especial atenção que o Santo Ofício dirigiu sobre esta classe.br Será de presumir que entretanto muitos dos que não puderam emigrar, certamente as famílias mais pobres, as que não tiveram recursos para comprar a liberdade de sair do país, buscaram refúgio em regiões montanhosas da faixa fronteiriça com a Espanha, o mais longe possível dos centros de repressão. Aí integraram-se em comunidades de ascendência judaica já existentes, sobretudo originárias de núcleos de judeus expulsos de Espanha em 1492. Vivendo entre cristãos, tiveram de aparentar na superfície que seguiam os mesmos preceitos que eles. O culto mosaico continuava no entanto a ser observado, sob o máximo segredo. E assim a doutrina e as tradições básicas do credo judaico foram mantidos numa vida subterrânea por cerca de quinhentos anos. Era tal o isolamento que muitos pensavam que as suas comunidades eram os únicos núcleos judeus do mundo inteiro.

Por outro lado a ignorância cristã sobre a vida dos criptojudeus, conhecidos entre as populações locais pela simples designaçäo de judeus, levou à criaçäo das mais absurdas lendas e por consequência de um ambiente de franca hostilidade contra eles. Já no século XVII uma obra intitulada Sentinela contra os Judeus ecoava a crença popular bastante disseminada de que alguns hebreus, os descendentes de rabinos, tinham um pequeno rabo. As alusões a assassinatos de crianças cristãs para sacrifícios rituais eram comuns. Em tempos mais modernos disseminou-se o mito dos "abafadores", ou seja aqueles que alegadamente sufocavam um moribundo para evitar que ele divulgasse segredos ao padre que o viesse confessar. Este mito chegou mesmo a encontrar eco num conto de um dos mais destacados escritores da actualidade, Miguel Torga. Até no cancioneiro popular se encontram reflexos destas fabricações: "Esta casa é täo alta, / forrada de pau espinho: / O homem que nela mora / é judeu e tem rabinho" ou "Esta casa cheira a breu: / mora nela algum judeu".

Presentemente encontram-se vestígios de núcleos criptojudaicos em várias localidades da zona raiana de Trás-os-Montes e da Beira, sendo Belmonte o mais conhecido. Calcula-se que dos cerca de quatro mil habitantes da vila, quinhentos ou seiscentos tivessem sido de ascendência judaica. O seu número foi no entanto reduzido pela onda de emigração que nas décadas de sessenta e setenta afectou Portugal, muito em particular nas zonas nordeste e centro-este do país, assim como por casamentos fora do grupo. Até há pouco tratava-se na sua maior parte de gente humilde, mal distinguível na aparência do povo comum da região. Eram sobretudo artesãos (muitos deles dedicavam-se à indústria dos cortumes), vendedores ambulantes ou pequenos comerciantes. Poucos se dedicavam à agricultura, embora vivessem em zonas rurais. O seu grau de escolarização näo ia acima do nível geral dessas zonas, o que significa que tradicionalmente se tivesse registado um alto índice de analfabetismo. Nos últimos anos, contudo, desenvolveu-se uma relativamente próspera classe mercantil que gira à volta do negócio de confecções.

O culto judaico encontra-se agora reduzido à celebração do Sabbath, da Páscoa e do Yom Kipur. A liturgia, repetida de memória e por longos anos orientada por mulheres, muitas vezes analfabetas, encontra-se, como é natural, muito deturpada e contaminada por práticas cristãs.

As primeiras referências escritas aos modernos criptojudeus, aliás bastante vagas, parecem ter sido feitas por Cardozo de Bethencourt num artigo publicado em The Jewish Cultural Review, que no entanto baseou apenas em informações recolhidas em Lisboa. Curioso é, contudo, que lance já a ideia de um esforço de reconversão:
When one sees an attempt to re-establish the Mosaic Law among the Jews of Kai-feng-fu, one asks oneself if the same work could not be undertaken, with more success, among the small groups of New Christians in the North of Portugal. The greatest obstacle would be, as in China, the circumcision of adults. On the other hand the law punishes by an imprisonment of one or two years any one who attempts to make proselytes for any other than the State religion, Catholicism.

A sugestão de Cardozo de Bethencourt não causou qualquer apreciável impacto. A atenção pública para os núcleos criptojudaicos só se despertou na realidade quando um judeu polaco, o engenheiro Samuel Schwarz, foi encarregado pelo governo português de estudar os recursos mineiros da faixa fronteiriça do noroeste do país. Chegado em 1915, percorreu várias povoações da zona raiana e, investigadoe interessado na história do judaísmo, deu-se logo conta da existência destes grupos. A princípio encontrou enorme dificuldade em conseguir a sua confiança. Os criptojudeus não podiam conceber que um judeu se assumisse publicamente como tal. Para o experimentar, pediram-lhe que recitasse algumas orações judaicas. Como näo as sabia em português, a desconfiança subsistiu. No entanto ao pronunciar a Shema, a confissão de fé, em hebraico, idioma que os criptojudeus nem sequer sabiam que existia, foi reconhecida a palavra Adonai (Senhor) e isso fez com que Samuel Schwarz passasse a ser aceite como correligionário. Recolheu então várias tradições orais e conseguiu reunir alguns livros manuscritos de orações. À base destas experiências publicou em 1925 Os Cristãos-Novos em Portugal no Século XX. Nele aludiu à intromissão de elementos católicos nos ritos judaicos e a outras divergências em relação à ortodoxia.

A notícia da descoberta destas comunidades causou certa sensação nos círculos judaicos internacionais. Alertada a comunidade israelita de Lisboa da existência destes "heréticos", lançou-se o alvitre de fundar na capital uma escola onde os filhos dos criptojudeus fossem instruídos na lei mosaica tradicional, com a esperança de que a ortodoxia se pudesse eventualmente restabelecer, depois que regressassem aos seus lares. Um apelo de fundos para este fim, dirigido a comunidades israelitas do exterior, levou ao envio a Portugal, em Janeiro de 1926, do historiador, jornalista e diplomata Lucien Wolf com o objectivo de estudar a viabilidade do projecto. Wolf passou quatro semanas em Portugal visitando, na companhia de Samuel Schwarz, os núcleos criptojudeus de Belmonte, Caria, Covilhã e Porto e entabulando conversações em Lisboa com os dirigentes da comunidade israelita e com entidades a ela alheias, incluindo o próprio Presidente da República e o Presidente do Conselho de Ministros.
Nesse mesmo ano Wolf apresentou à Alliance Israélite Universelle e ao Council of the Anglo-Jewish Association um relatório sobre as suas observações. Wolf deu a saber que entre estes grupos não se poderiam encontrar provas de que conhecessem algo da doutrina e da ética judaicas ou da história dos judeus, com a excepção da Bíblia e de alguns episódios relacionados com a Inquisição. Embora os seus ritos funerários estivessem relativamente próximos dos praticados dentro do judaísmo oficial, as orações näo correspondiam às da liturgia hebraica e eram todas pronunciadas em português. Dado o grande analfabetismo do grupo, a doutrina baseava-se na tradição oral, transmitida por linha feminina. Existia no entanto entre eles uma sólida consciência do seu judaísmo. Entretanto, e com o auxílio de círculos hebraicos do exterior, ia tomando corpo na cidade do Porto um activo movimento de integração dos criptojudeus. O catalizador deste movimento foi o Capitão Artur Carlos de Barros Basto, um oficial do Exército Português nascido em 1887 que se tinha brilhantemente distinguido durante a Grande Guerra nos campos da Flandres e recebido as mais altas condecorações nacionais e estrangeiras. Barros Basto vinha, por parte de seu pai, de uma família de cristãos-novos de Amarante. O seu avô era inclusivamente criptojudeu praticante. No desejo de reverter à fé dos seus antepassados Barros Basto apresentou-se um dia na sinagoga sefardita de Lisboa e declarou-se judeu. Não tendo contudo conseguido ser admitido na congregação, aprendeu hebraico e deslocou-se a Marrocos para receber instrução religiosa. Em Tânger foi circuncidado e oficialmente aceite dentro da religião judaica, adoptando o nome de Abraham Israel Ben-Rosh. De regresso à cidade do Porto desenvolveu uma notável acção no sentido de defender os interesses da pequena comunidade israelita aí residente, umas dezassete famílias originárias da Europa Oriental. Foi devido aos seus esforços que se construiu uma sinagoga na cidade. Fundou também uma yeshiva, cujas actividades se iniciaram com cinco jovens vindos da zona fronteiriça. Ao longo de uns dez anos receberam aí instrução religiosa cerca de noventa adolescentes criptojudeus. O programa da yeshiva incluía aulas de hebraico, português, francês, história judaica, teologia, apologética, homilética e liturgia cerimonial. No entanto nunca se conseguiu formar um único rabi e os alunos, regressados às suas terras de origem, em breve esqueceram os ensinamentos recebidos, tendo alguns mesmo chegado a manifestar sentimentos anti-semíticos. Barros Basto organizou também sessões de oração e esclarecimento em Belmonte, Covilhã, Bragança e outras localidades, sempre no seu afã de trazer "marranos" ao judaísmo oficial. A primeira "reconversão" teve lugar já em 1926 e foi seguida por algumas outras em anos subsequentes. Em termos gerais, todavia, os criptojudeus nunca se sentiram atraídos pela ortodoxia, cujo rigorismo repudiavam, e mantinham-se firmes na sua forma de culto, que consideravam como a única verdadeira.
Perseguido pelas suas convicções, sofrendo uma campanha que a Acção Católica lançou contra ele, Barros Basto acabou por ser julgado em conselho de guerra por actos atentatórios à moral. Esses actos tinham consistido em defender a prática da circuncisão para os criptojudeus que aceitassem a lei oficial. Também os seus acólitos sofreram perseguições, em alguns casos perderam os seus empregos e foram acusados de ligações com a Maçonaria. O movimento chegou a ser caracterizado como uma tentativa de descristianização por um jornal católico.

Apesar do intenso empenhamento de Barros Basto, todas as tentativas de "purificar" a fé dos criptojudeus falharam, devido a algumas dissensões entre os dirigentes da sinagoga do Porto e críticas vindas de círculos judaicos estrangeiros mas sobretudo em virtude do enorme arraigamento às tradições criadas pelos "marranos" no sistema de segredo e da funda desconfiança em relação a contactos com elementos alheios ao grupo. Pelos fins da década de trinta os esforços nesse sentido foram abandonados.

Como é óbvio, para além de uma superficial aceitação do catolicismo, os criptojudeus tiveram de lançar mão de variadíssimas estratégias de camuflagem para a sua sobrevivência. Uma das primeiras foi o abandono da circuncisão, já que evidentemente o circunciso caído nas malhas do Santo Ofício poderia ser identificado como de ascendência judaica. Também desapareceram todos os textos em hebraico e todos os objectos relacionados com o culto, como sejam menorahs, mezuzahs, mizrahs, shofars, candelabros, as facas cerimoniais usadas para a circuncisão ou os mantos de oração e de cobertura da Torah.

Outra táctica, talvez a mais rigorosa e duradoura, foi o secretismo. O culto tem-se até hoje realizado dentro de casa, com as portas e janelas bem cerradas. Em muitos lugares a candeia de sábado é colocada dentro de um recipiente de barro, de modo que a luz não possa ser detectada do exterior. Também qualquer acto ritual passível de chamar a atenção pública foi abandonado. Deixou pois de se celebrar a Festa dos Tabernáculos, durante a qual se erguem pequenas cabanas no exterior das casas, assim como o Rosh Hashana, o Purim e a Hanucá, e de se praticar a degolação do cordeiro pascal e o abate ritual de cabeças de gado. Abandonados também foram o mikvah ou banho ritual, assim como os cânticos religiosos, que podiam ser ouvidos do exterior.

copyright © 1997 Eduardo Mayone Dias EMDias@aol.com


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