
Para iludir primeiro o Santo Ofício e depois a curiosidade dos "góios", como os cristãos-velhos são designados, a preparação do pão ázimo e a celebração da Santa Festa ou Páscoa judaica são adiadas por alguns dias. A adopção de nomes portugueses foi geral, em certos casos até com preferência por alguns de implicações cristãs. Cruz é um deles. E tão comum entre os criptojudeus da Covilhã que alguém comentou jocosamente que lá existiam mais Cruzes do que no cemitério. O casamento dentro do grupo, rigorosamente praticado até ao fim do século dezanove, assegurava a manutenção das tradições e salvaguardava o sigilo das práticas rituais.
Determinadas opções no sistema alimentar representaram também uma tentativa de mimetismo. Como a rejeição de certos alimentos denunciaria a prática do antigo credo, os criptojudeus passaram a comer carne de porco, embora se abstenham de o fazer durante o Sabbath e nos dias santos do calendário judaico. Não se consomem contudo morcelas nem outros enchidos que contenham sangue e para manter as aparências criaram-se mesmo as "alheiras" ou "tabafeiras", uma espécie de chouriço confeccionado sem carne de porco e com tripa de vaca. Igualmente são repudiados o coelho, a lebre e o peixe sem escamas. A carne também é repetidamente lavada para se lhe extrair o sangue.
O cerimonial associado aos ritos de passagem acusa vários graus de desvio em relação à prática tradicional sefardita. No que diz respeito ao nascimento, a colocação de uma cabeça de galo por cima da porta do quarto da futura parturiente, a proibição de a mãe se descobrir ou mudar de roupa por trinta dias após o parto e o hábito de atirar uma moeda de prata na água do primeiro banho do recém-nascido näo têm paralelo nos costumes dos grupos residentes em outros países. Contudo, a oração pronunciada oito dias depois do nascimento, em que o nome da criança é mencionado, representa um resquício do serviço religioso da circuncisão, durante o qual se anuncia o nome a ser dado ao menino.
O bar mitzvah deu lugar a uma cerimónia de iniciação, celebrada aos sete anos e não aos treze, como manda a praxe oficial. Outra divergência em relação a esta praxe é o jejum de vinte e quatro horas a que o adolescente tem de se submeter. Nos ritos ligados ao casamento o jejum dos noivos corresponde a um costume que se abandonou na prática moderna. Entre os criptojudeus existem as tradições de jejuarem também dois amigos do noivo e duas amigas da noiva, de cobrir as mãos unidas dos nubentes com um pano de linho e de se servir uma refeição composta de sal, ervas amargas, mel, uma maçã e um copo de vinho, o que não tem correspondente no uso sefardita actual. O costume de os noivos comerem do mesmo prato e beberem do mesmo copo durante o banquete, o que simboliza a sua união, integra-se contudo no uso tradicional. Quanto aos ritos funerários, vários são ainda observados com relativa pureza. O corpo é lavado e vestido de branco e guarda-se o shivah ou os sete dias de luto prescritos pela tradição. Inclusivamente muitos dos homens não se barbeiam por um período de trinta dias após o falecimento de um parente próximo. As mulheres devem trazer a cabeça e mesmo o rosto oculto com um xaile, uma prática que corresponde à dos sefarditas de Marrocos. Também se deve manter acesa uma luz na casa durante um ano. A roupa do falecido é oferecida a um pobre, que também é convidado para comer com a família.
Outras práticas são nitidamente criptojudaicas. Uma delas é a de "desintreflar" ou seja purificar a casa depois de um falecimento. Como é fácil imaginar, o que tornou a casa impura foi a visita do sacerdote católico que, a fim de manter as aparências, havia sido chamado para ministrar os últimos sacramentos. Os sefarditas do exterior limpam a casa depois do saimento, mas obviamente não pelas mesmas razões. Também parece ser costume exclusivo do grupo cortar as unhas ao cadáver (ou pelo menos duas) e embrulhá-las num pedaço de pano ou papel, colocar um pedaço de pão no caixão e passar uma moeda e um pedaço de pão pelos olhos do morto. Uma variante deste último costume é passar-lhe pela boca uma moeda de ouro ou prata, que depois é dada a um pobre. É usual também lançar fora a água existente na casa do defunto, já que o anjo da morte lavou nela a sua espada, colocar farinha e comida à volta da cama e não comer carne por uma semana após o falecimento. Ainda outro costume é o de servir pãezinhos acabados de tirar do forno, na esperança de que a alma do defunto saia tão depressa do purgatório - um conceito predominantemente originário do cristianismo - como o bafo quente sai do pão.
Quanto à observância do calendário religioso, em vários aspectos segue-se a ortodoxia judaica. São rigorosamente guardados pela maioria das famílias o sábado, a Páscoa e o Dia Puro, ou seja o Yom Kipur. Durante a Páscoa faz-se uma refeição ao ar livre, no campo, uma prática seguida também por sefarditas levantinos. Tal como determina a regra judaica usa-se nesta ocasião loiça especial. As orações são sempre rezadas com o corpo voltado na direcção do Oriente. Uma tradição que não se observa no exterior é a "oração da água", pronunciada junto a um rio na véspera da Páscoa, enquanto se bate a água com um ramo de oliveira. Este ramo será depois utilizado para acender, na Páscoa seguinte, o fogo em que coze o "pão santo", ou seja o pão ázimo. A preparação deste pão obedece aos preceitos convencionais, que incluem lançar ao fogo três pequenos pedaços de massa.
Algumas fontes referem que a festa do Yom Kipur entre os criptojudeus começava na véspera pela capara, durante a qual batiam várias vezes na cabeça com um galo vivo. Esta prática corresponde aproximadamente à dos Kaparoth no judaísmo oficial, aliás considerada por alguns teólogos como uma forma de superstição e de paganismo. Consiste o ritual, que também tem lugar na véspera do Yom Kipur, em dar três voltas à roda da cabeça com um galo jovem, enquanto se recitam versos da Escritura. O galo é depois morto e ou comido pelos participantes ou dado a um pobre.
Outra prática criptojudaica também sem dúvida relacionada
com esta era uma cerimónia antes realizada com certo secretismo nas margens do rio Sabor,
na região de Bragança, durante a noite de S. João e que era conhecida como a Festa do
Galo ou Comida do Galo. Nesta cerimónia comia-se um galo e depois lançava-se ao rio algo
que flutuasse, como um pedaço de tronco de árvore, gritando então os assistentes:
"Aí vai o Messias!". Messias!"
O jejum do Yom Kipur é quebrado com três pedaços de pão que se mastigam e depois se
lançam ao fogo, o que possivelmente estará relacionado com a prática dos sefarditas
levantinos de o quebrar com uma refeição ligeira que inclui pão untado com azeite. O
jejum da Rainha Ester, que precede a festa do Purim, também é observado, embora a festa
não se celebre actualmente. O seu abandono radica sem dúvida no carácter de festividade
pública que assume nas comunidades judaicas do exterior.
Como antes se mencionou, contrariamente à norma, as sessões de oração são de um modo geral orientadas por mulheres, que recebem o nome de rezadeiras. Nestas ocasiões as mulheres cobrem a cabeça com um pano branco, plausivelmente um reflexo do preceito judaico que proibia às mulheres mostrar o cabelo a qualquer pessoa que não fosse o marido. Existe um vastíssimo acervo de orações de vaga ressonância hebraica mas criadas já dentro do período de secretismo. Aqui e além podem surgir termos e expressões hebraicas. Um exemplo é a frase, absolutamente ininteligível mesmo para os criptojudeus "Adunai Sabaat Malcolares Cobrado" que provém de "Adonai Tzeva'ot m'lo kol ha'aretz k'vodo" (Senhor dos Espíritos, toda a terra está cheia da sua glória). Um aspecto a notar é o uso nestas orações da forma "Deus", repudiada pelos antigos judeus portugueses em favor de "Deu", dada a sugestão de pluralidade que o s final poderia sugerir. A utilizaçäo pelos criptojudeus do vocábulo corrente entre os cristãos-velhos representa decerto outra estratégia de camuflagem.
A religião católica tem sido aceite na superfície, apenas como arma de defesa no passado e como busca de harmonia social no presente. Os criptojudeus têm sido baptizados, casados e enterrados segundo o ritual católico mas estas cerimónias têm sido precedidas por outras que seguem a chamada Lei Velha. Nas casas podem-se encontrar quadros e imagens religiosas mas isso serve apenas para despistar os visitantes.
O repúdio interior do catolicismo é frequente. Alguns autores referem que certas mulheres cosiam um crucifixo no interior da barra da saia e ao andar iam repetindo mentalmente a frase "Quanto mais te arrasto mais vontade tenho de te arrastar". Também ao entrar na igreja se evoca mentalmente uma fórmula de ressalva: "Nesta casa entro mas não adoro pau nem pedra mas sim um Deus que tudo governa". A mesma reserva é expressada por outras orações. No momento de rezar o Padre Nosso na igreja, muitos murmuram para si mesmos a seguinte oração: "Padre nosso um, Padre nosso dois, Padre nosso três, Padre nosso dez. Morra a lei de Cristo e viva a lei de Moisés". Ao aproximarem-se do confessionário pedem auxílio sobrenatural para evitar qualquer indiscrição: "Aos pés do cura me sento, a espada de Israel se meta entre mim e ele, para que me não procure senão o que eu lhe quiser dizer". E antes de tomar a hóstia repetem: "Cochicho cochichinho, não quero teu pão nem teu vinho, quero somente andar na lei de Moisés vivo".
Verifica-se no entanto uma certa dosagem de sincretismo religioso, seja ele devido às anteriormente referidas estratégias de camuflagem ou a uma quase inevitável interferência do catolicismo, a única religião oficialmente ensinada e divulgada. Em algumas casas podem observar-se retratos de "Santo Moisesinho" e de "Santa Ester", esta de algum modo paralelizada com a Virgem Maria. "Santa Ester" é evidentemente a Rainha Ester, de facto uma criptojudia, casada com um rei persa, que salvou os seus correligionários das maquinações de um perverso valido.
Reza-se também uma paráfrase do Padre Nosso, composta em quadras cujo último verso é um fragmento da oração cristã. Outra oração é dirigida a São Rafael, quase certamente uma transposição do arcanjo Rafael, que na tradição judaica está associado à cura dos doentes. Em Dezembro celebra-se o "Natalinho", que sem dúvida representa um vestígio da Hanucá ou Festival das Luzes.
O isolamento do grupo não se alterou substancialmente com a vinda do presente século. O clima anticlerical resultante da implantação da República em 1910 aliviou um pouco a situação e vários criptojudeus deixaram então de participar em actos públicos católicos. Contudo, durante a Segunda Guerra Mundial, a perspectiva de um alinhamento político do regime salazarista com o hitleriano, levou a grandes apreensões e intensificou o secretismo. Hoje em dia, na esteira da Revolução de 1974, que liberalizou as atitudes religiosas, nota-se um pouco mais de abertura e algo de interesse pelo conhecimento da tradição judaica, chegando os criptojudeus a informar-se junto das sinagogas de Lisboa das datas exactas dos dias santificados.
Em Belmonte fundou-se uma Casa da Comunidade, que funciona
como sinagoga. Como não existia rabino, os serviços eram orientados por um líder
comunitário, ainda jovem. Muitos dos membros do grupo, entre os menos idosos, assumem-se
já abertamente como judeus e foram circuncidados. Um ou outro visitou já Israel. Algumas
mulheres usam ao peito uma estrela de David pendente de um fio. Com o progressivo
interesse pelo Retorno, como o movimento de reconversão é designado, intensificou-se uma
vida comunitária em moldes quase ortodoxos. Contrataram-se os serviços de um rabino,
construi-se um mikvah e em 1996 foi inaugurada uma sinagoga.
O sector etário mais alto desta comunidade conserva-se ainda, no entanto, virado para um
remoto passado. A ele se pode aplicar o que Dan Ross, referindo-se aos criptojudeus
portugueses em geral, escrevia em 1984: "Today the Marranos are just a historical
curiosity, a ghost of their former selves". A sua atitude, fincada num histórico
atavismo, tem de facto algo de fantasmal.
O hermetismo que ainda tão intensamente subsiste é uma das mais flagrantes componentes dessa atitude. É curioso observar como, por exemplo no caso de Belmonte, qualquer pessoa possa de imediato apontar quem é "judeu" ou quem näo o é, e sem embargo persista uma impassável barreira defensiva erguida em relaçäo a não-judeus. A longa história de perseguições fez cristalizar o receio, embora na actual conjuntura política o perigo seja de todo inexistente. É contudo tal o peso da tradição, a quase fossilização da sua mundivivência, que ainda há poucos anos se rezava pela "salvação dos irmãos metidos nas casas da Inquisição".
O facto de os criptojudeus se terem radicado em zonas fronteiriças levou a uma seclusão que foi fora de dúvida um dos mais poderosos factores da manutenção da sua identidade como um grupo ferrenhamente apegado às suas convicções e que na realidade gerou uma nova forma de judaísmo. A admirável tenacidade com que têm preservado o seu estilo de vida, frente a quase insuperáveis obstáculos, é a um tempo a sua força e a sua debilidade, posto que será factível admitir que o seu endogenismo não possa assegurar para além da presente geração a sobrevivência face às crescentes solicitações de uma sociedade moderna.
copyright 1997 Eduardo Mayone Dias EMDias@aol.com
E-mail: Rufina Bernardetti Silva Mausenbaum